Quando Nos Lembram O Lado De Lá

Minha mãe disse, o seu cabelo ruivo/E os seus olhos verdes, cintilantes como o fogo:/São sempre ‘Os Portugueses’. (Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity)

Millicent Borges Accardi, uma poeta que desde há algum tempo passou a identificar-se como “luso-americana”, acaba de publicar uma nova colectânea da sua obra, intituladaInjuring Eternity, o que já nos diria muito como poesia dos nossos dias, e ainda mais agora pelo facto de incluir alguns poemas identitários, por assim dizer, mesmo que em certos casos só vagamente reconhecidos como tal.


Crescentemente reconhecida entre os seus pares norte-americanos, a sua aproximação à ancestralidade portuguesa pelo lado paterno (os seus avós e dois tios eram da Ilha Terceira) alia-se de modo contundente ao seu lado materno irlandês, como num desses poemas de chamamento às suas raízes étnicas lusas que abre com o verso de queixa e fascínio por parte da sua mãe, citado aqui em epígrafe, “Why not the Irish?”: It’s always ‘The Portuguese!’ – Sempre ‘Os Portugueses!’ Por certo que a própria autora adverte algures que não deveremos assumir todas as narrativas em verso como sendo “autobiográficas”, mas estas dificilmente teriam nascido fora do círculo íntimo da sua herança múltipla cultural. Não se trata aqui, nestas minhas linhas, de celebrar essa “opção” de Borges Accardi, mas sim relembrar a todos que a nossa riqueza intelectual e criativa na América do Norte foi sempre muito subestimada por cá, raramente apreciada pelos nossos literatos fora de um grupo de académicos e leitores interessados na literatura cosmopolita da transnacionalidade, de que fomos, afinal, desde Camões a Pessoa, pioneiros no Ocidente.

Até mesmo na modernidade literária dos Estados Unidos, José Rodrigues Miguéis, no seu isolamento quase absoluto de Manahattan durante algumas cinco décadas, anteciparia, na nossa língua e em várias volumes, quase todos os escritores de outras nacionalidades cujos temas se virariam decididamente (Salman Rushdie e todos os seus colegas, desde Londres e Toronto a Nova Iorque) para a experiência imigrante do século passado a nível mundial. Só que a nossa prolongada desatenção felizmente deu lugar actualmente ao aconchego total (nacional) entre os escritores luso-descendentes e o “seu” país da memória e de sangue. No caso de Borges Accardi não serão por enquanto três ou quatro poemas que a colocarão no já substancial cânone literário dos luso-descendentes de língua inglesa, mas sim o processo que a trouxe até nós, sem nunca ela negar a sua provável busca interior, solitária e pessoalíssima antes de assumir abertamente a sua ligação genética e intelectual ao mundo luso transfronteiriço.

Antes de mais, uma outra curiosidade de coincidências, ou de como os caminhos são-nos por vezes traçados sem nunca nos apercebermos das tramas do “destino”: Millicent Borges Accardi foi colega na faculdade do Long Beach City College (no sul da Califórnia) do poeta e romancista Frank X. Gaspar, onde ambos leccionavam língua inglesa e literatura, e tem em comum com a Katherine Vaz (autora do romance Saudade e dos contos Fado and Other Stories) ser de pai açor-americano e de mãe, como também já referi, irlandesa, optando as duas pela tradição lusa, tal como poderiam ter optado pela nada menos admirável tradição literária que tem, como se sabe, Joyce no centro da Modernidade artística, e incontáveis escritores da mesma descendência nos EUA. Borges Accardi aprofundou o seu regresso às origens portuguesas com a sua participação o ano passado num dos mais originais e consequentes encontros literários no nosso país (intitulado Disquiet, alusão directa a Fernando Pessoa e ao seu livro talvez mais conhecido entre os luso-descendentes) que combina aulas de escrita criativa durante algumas semanas com sessões de leitura e convivência entre os convidados estrangeiros e os escritores residentes em Lisboa, tendo já um lugar assegurado os mais conhecidos autores luso-americanos. A poeta refere numa recente entrevista a Kathi Stafford no Portuguese-American Journal essa sua primeira visita ao nosso país como tendo sido um dos momentos mais reveladores da sua vida.

“De certo modo, — disse à sua entrevistadora — foi um alívio ver o país dos meus antepassados; já o esperava há muito tempo, e por ter sido num encontro de escritores, sinto como se tivesse assistido a um curso intensivo sobre tudo que é português. Num só verão, conheci mais luso-americanos que também são escritores do que em toda a minha vida! Vi a famosa estátua de Fernando Pessoa, saboreei vinho do Porto e vinho verde. Vi o cais, fui a um concerto de Fado à meia-noite numa pequena taberna. Foi uma experiência tremenda. Antes desta minha viagem tinha conhecido só um outro luso-americano para além da minha família. Agora, tenho em mim a experiência de me passear em Lisboa e em Sintra”.

De resto, volta a falar na mesma entrevista sobre a história da família desde a Terceira ao seu enraizamento na Califórnia (área de Los Angeles), dizendo que o pai, apesar de já ter nascido na América, só começou a falar inglês na escola. Por mais distante que Borges Accardi se tenha mantido das nossas comunidades ali bem perto e do país ancestral, a sua história tem tudo em comum com a grande maioria do nosso povo no processo de se reinventar num mundo de início estranho e em tudo avassalador. O regresso a casa das segundas e terceiras gerações de luso-americanos, principalmente os que se formaram a nível superior e passaram a cultivar para si um espaço de grande criatividade na cultura literária do seu país natal, aconteceu e intensificou-se só nos anos mais recentes, enriquecendo-nos mutuamente, e sobretudo trazendo os mosaicos que nos faltavam na nossa própria história sociocultural e literária.

Injuring Eternity Está dividido em três secções, “Morning”, “Noon” e “Evening”, cada uma delas referenciando a vida ao pé da porta ou viajando pelas mais longínquas geografias humanas e pela história trágica de tempos mais remotos ou recentes, através de vozes e “narradoras” confessionais que se desdobram quase heteronimicamente, Pessoa permanecendo sempre a referência primeira dos escritores luso-descendentes. Entre o formalismo de alguns poemas e a livre prosa-poética de outros, a linguagem de Borges Accardi é de uma imagística claríssima e vigorosa, de um realismo quase cru na descrição de memórias e de situações dos seus protagonistas nos seus momentos apanhados para sempre pelo verbo, que tudo torna eterno, mesmo que longe da nossa vista ou do nosso conhecimento. É a história-outra, sempre de tempos que se confundem entre passado e presente, das geografias que habitamos e das que nos habitam invisivelmente. Na voz da poeta reconhecemo-nos num todo ou reconhecemo-nos fragmentados em bocados de vida vivida, em passados imaginários, em identidades em constante fluidez e reajustamento em mundos cada vez mais frios, ironicamente cada vez mais desenraizados e indiferentes à sorte “do coração humano em conflicto consigo próprio”, como poetizou por outras formas William Faulkner na sua própria busca de sentido e paz. De um conjunto de poemas que formam uma só narrativa é feito esta bela e inteligente “afronta à eternidade”.

Mais do que falar da poesia de Injuring Eternity, quis aqui assinalar o processo deste outro regresso à nossa comum por parte de Millicent Borges Accardi, e o seu tardio conhecimento tanto dos seus colegas luso-americanos como do nosso país. Devo ainda adicionar que numa antologia de poesia luso-americana organizada por George Monteiro e Alice R. Clemente a ser publicada pela Gávea-Brown (Brown University), Borges Accardi estará representada com alguns destes poemas retirados do livro aqui em foco, assim como do seu primeiro livro, Woman on a Shaky Bridge. O reconhecimento da poeta, pois, vem já de um espaço bem mais amplo para o nosso ainda em formação numa Diáspora renovada e de todo (se isso traz alguma satisfação a alguns) inteiramente moderna. A autora tem sido premiada de várias formas por instituições tão prestigiadas como a National Endowment for the Arts e a California Arts Council.

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Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity, Mischievous Muse Press/World Nouveau Company, 2010. A tradução da epígrafe e do passo da entrevista é da minha responsabilidade.

(*) O autor Vamberto Freitas é escritor,ensaísta,crítico literário dos mais considerados na expressão literária ibérica e também da literatura produzida pelos escritores luso-descendente, sendo uma voz forte na defesa e na sua difusão.


Lélia Pereira Nunes e Irene Maria F.Blayer     

GRANDE REPORTAGEM: Fãs recriam na web novos caminhos para histórias consagradas


A estudante Renata Salles é autora de um projeto ambicioso:
a continuação da famosa quadrilogia de Stephenie Meyer,
iniciada em 2005 com Crepúsculo
Fãs de histórias consagradas, como as sagas Harry Potter e Crepúsculo, encontram na internet terreno fértil para recontá-las, muitas vezes com personagens imersos em enredos completamente diferentes. Ao criar as chamadas fan fictions, narrativas ficcionais feitas por fãs, eles estimulam a criatividade e o gosto pela escrita.

A iniciativa não é nova: já no século XVII, versões não autorizadas de Dom Quixote foram publicadas antes de o segundo volume da obra de Miguel de Cervantes ser lançado, em 1615. Populares entre os anos 1970 e 1990 no Brasil, as fanzines também estamparam adaptações em revistas editadas por fãs. Mas foi a internet que potencializou e deu nova dimensão à produção das fan fictions.

"A cultura participativa dos fãs sempre criou seus próprios produtos. A diferença é que a rapidez e a facilidade de publicação amplificam o público e geram novas apropriações", avalia a professora da pós-graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Adriana Amaral.

São diversos sites que abrem espaço para as também chamadas fanfics. O FanFiction.net (http://www.fanfiction.net/) recebe adaptações não só de obras literárias, mas também de filmes, peças de teatro e jogos, por exemplo.

Entre os que fizeram sucesso nas telonas, a franquia Piratas no Caribe conta com mais de 19 mil fanfics. Até o longa O Silêncio dos Inocentes, ganhador do Oscar de melhor filme em 1991, ganhou versões: são quase 1,4 mil recriações. Harry Potter é insuperável entre os livros: a saga de J. K. Rowling já ultrapassou as 577 mil adaptações. "A fanfic é uma escrita de nicho, daí o porquê dessa prática também ter alcançado seu sucesso na internet, pois é algo que quem gosta vai atrás. É preciso buscar a informação", diz Adriana. O formato é tão estruturado que há até classificação etária, de acordo com o conteúdo abordado.

A estudante de Arte Dramática Renata Salles, 18 anos, de São Paulo, é autora de um projeto ambicioso: a continuação da famosa quadrilogia de Stephenie Meyer, iniciada em 2005 com Crepúsculo, e febre entre adolescentes. Intitulado Utopia, o livro que começou a ser escrito em 2008 já está no décimo capítulo e reúne leitores no blog oficial (http://utopiaon.blogspot.com/) e em redes sociais. A versão tem até capa de divulgação. Na conta, mais de 1,2 mil visualizações e downloads - sem falar no número não estimado de leitores através do site brasileiro especializado Nyah! Fanfiction (http://www.fanfiction.com.br/viewstory.php?sid=47823).

Para Renata, o gosto de "quero mais" deixado pelo último livro da série serviu de impulso para novas ideias e para a vontade de escrever. "Não foi premeditado. Na época, eu nem sabia o que era uma fan fiction", conta.

O início foi modesto: participante de fóruns de debate sobre a saga, ela enviava os capítulos em PDF (formato de arquivo eletrônico) via e-mail para quem se interessasse. A intenção de publicar uma versão impressa não se concretizou, mas no meio online ela acumula fãs que vão dos 13 até mais de 25 anos, segundo sua própria estimativa.

A professora de Língua Portuguesa do Colégio Sagrado Coração de Maria, em Vitória (ES), Kelly Christine Lisboa Diniz vê na produção de fanfics um exercício criativo válido. "Entre um adolescente não escrever nada e escrever esse tipo de história, é melhor que ele faça uso da escrita. Assim, ele está se comunicando socialmente, está interagindo com as estruturas de narração", analisa. Ela ainda frisa que as produções derivadas e disseminadas via internet não devem ser descartadas, pois representam uma característica da geração atual.

A professora de Língua Portuguesa e Redação Evanice Ramos Lima Barreto, doutoranda em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia, vê nas fanfics grande importância no desenvolvimento da leitura e da escrita entre os adolescentes. "Elas despertam o desejo de ler e estimulam a produção textual", diz.

Com Renata, o processo foi semelhante. Empolgada com a adaptação de Crepúsculo para as telonas (o filme foi lançado no Brasil em dezembro de 2008), ela aceitou a sugestão da irmã e começou a ler os livros. "Eu não tinha o hábito de ler. Para falar a verdade, eu odiava. Nunca tinha conseguido, e Crepúsculo parecia um livro muito grande", admite. Quando terminou o primeiro volume, seguiu com a curiosidade típica de quem faz uma nova descoberta. Agora, o objetivo é finalizar Utopia e partir para uma obra autoral, com universo e personagens próprios. "A escrita e a leitura agora definitivamente fazem parte de mim. E continuarão fazendo, com certeza", garante.

O processo de criação na internet
Na hora de começar uma fan fiction, o importante é não limitar o potencial criativo a uma mera reprodução da história. "Quando o jovem recria com uma base pré-concebida, também precisa de criatividade, senão ele cai no óbvio", orienta Kelly. Outro ponto ressaltado por ambas as professoras é que as fanfics devem servir como ponto de partida para o adolescente tomar gosto pela leitura ou pela escrita, não como uma preferência exclusiva. "É preciso estimulá-los à leitura dos mais diferentes gêneros textuais, a fim de que eles não se limitem a uma modalidade", destaca Evanice.

No entanto, narrativas que incorporam gírias e abreviações utilizadas pelos jovens no ambiente virtual, como é o caso de algumas fanfics, são um dos principais motivos para que certos acadêmicos observem esse tipo de narrativa com reservas. "Há puritanos da língua que defendem apenas a escrita baseada em norma culta, mas nós temos que levar em conta essa variação", defende a professora Kelly, que também é mestre em Texto e Discurso pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Por outro lado, Evanice argumenta que o meio acadêmico tem, sim, consciência de que se deve valorizar todos os gêneros textuais, incluindo a literatura na web.

Além das fanfics, a internet pode servir como estímulo à escrita em projetos pedagógicos colocados em prática na sala de aula, seja de forma lúdica ou desafiadora. Evanice acredita que a possibilidade de publicação - e a potencial existência de leitores - é uma grande motivação para que jovens invistam na criação de textos. "A construção de blogs para a publicação de relatos pessoais, poesias, contos e crônicas produzidos pelos alunos, bem como o jornal escolar virtual e a revista eletrônica são alguns exemplos", indica. Na escola onde Kelly leciona, os alunos são incentivados a discutir temas em fóruns, nos quais os professores também participam, criar conteúdo para jornais internos e produzir livros online (alguns deles com histórias em quadrinhos).

Tornar-se autor de fanfics não é uma tarefa difícil e traz benefícios. Muitas vezes, mexe com a vontade do autor iniciante de mais tarde se profissionalizar. Produzir literatura pra valer, contudo, não é tão simples: exige planejamento, conhecimento de aspectos estruturais, culturais e avaliação do público a que será direcionado a obra, aponta Kelly. "Nem a escola consegue garantir que todos os escritores de redação serão literários, então que dirá um gênero textual na internet. Mas pode ser que saiam bons, e tomara que saiam", diz.

A questão legal
As leis brasileiras sobre propriedade intelectual e direitos autorais são enfáticas: autorização do autor é essencial para reproduzir ou adaptar uma obra com copyright. Mesmo no caso de produções estrangeiras, a advogada Sâmia Amin Santos, representante em Minas Gerais da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI), esclarece que o Brasil tem tratados internacionais que reconhecem a reciprocidade e fazem valer a lei quando é caracterizado o dano. "Na prática, se o autor quiser impugnar, ele pode pedir para retirar o material do ar", explica.

Mas nem sempre a medida extrema é a mais requisitada. Alguns criadores inicialmente se sentem prejudicados pelas adaptações de seu trabalho, mas depois ficam contentes com o sucesso. "Tem clientes que primeiro chegam indignados. Posteriormente, em razão da repercussão, eles até incentivam, desde que não denigra a imagem do autor ou do personagem", conta Sâmia.

Na turma dos que levam a prática na esportiva, J. K. Rowling estabelece como regra aos fãs de Harry Potter que as histórias não sejam publicadas com objetivo comercial, enquanto Stephenie Meyer chegou a abrir um espaço em seu site oficial (http://stepheniemeyer.com/ts_fansites.html) para a publicação das adaptações. Já Anne Rice, autora de Entrevista com o Vampiro, manifestou-se totalmente contra à prática e pediu aos fãs que não escrevam fanfics sobre sua obra.

Renata Salles, autora de Utopia, reconhece que as criações podem ser consideradas uma infração às leis de direitos autorais, mas também acredita que a repercussão e o retorno que a atividade oferece ao autor da obra original pode relevar esse aspecto. "De modo algum eu quero tomar a história pra mim. Utopia é um tributo à saga Crepúsculo, de modo que a história que escrevi de certa forma também é dela Stephenie Meyer".

Lidar com a propriedade intelectual em tempos de rápida disseminação de material em meios digitais é um debate controverso. Para a advogada Sâmia, tanto autor quanto leitor teriam de ceder um pouco, respeitando o conteúdo que não é liberado para reprodução e entendendo que é difícil monitorar o que é divulgado. "A internet, sem dúvida, possibilitou maior liberdade e circulação de informações, mas também trouxe prejuízo para alguns autores. Agora é hora de repensar. Teria que existir uma forma de o autor controlar, mas sem ferir a liberdade de expressão", opina.

Lançada obra literária intitulada "Sexo e Comida"

A obra literária intitulada “Sexo e Comida”, da autoria de Wladimiro Cardoso foi lançado hoje, terça-feira, em Luanda, no pátio do Centro de Formação de Jornalistas (Cefojor), em Luanda.
Em declarações à Angop, o escritor fez saber que o livro poético, com noventa páginas e 1500 exemplares, ressalta, dentre outros aspectos, a importância do namoro por via de palavras, porquanto estas ajudam a cimentar a relação entre homem e mulher.
“A obra de 83 poemas, surge em uma perspectiva não muito distante da dimensão valorativa e sugestiva. Porque faz-se aquilo que seria os elementos que caracterizam duas realidades ligadas ao prazer”, concluiu.
Wladimiro Cardoso nasceu em 29 de Setembro de 1986 em Luanda.

Lino Damião no festival de Macau

Artista plástico mostra a
arte angolana na primeira
edição do Festival Literário de Macau
O artista plástico angolano Lino Damião vai expor algumas das suas obras no I Festival Literário de Macau, denominado “A Rota das Letras”, que se realiza de 29 deste mês a 4 de Fevereiro.

“A Rota das Letras” leva à Região Administrativa Especial da China romancistas, poetas, jornalistas, cineastas, músicos e artistas plásticos angolanos, chineses, portugueses, brasileiros, cabo-verdianos e moçambicanos, de diferentes gerações e variadas sensibilidades ou correntes artísticas, que em comum têm o talento e a vontade de o partilhar.

No site do festival, o seu director, Ricardo Pinto, considera-o uma questão de identidade que começou como um sonho saído de uma conversa de amigos e um ano depois se tornou realidade.
“A Rota das Letras, que agora se abre a escritores e gentes de muitas outras artes, é um tributo ao papel que Macau sempre desempenhou na aproximação dos povos e das suas culturas – autêntico código genético contido na sua identidade secular – e também o reconhecimento de que o reforço das relações entre a China e o mundo Lusófono, politicamente assumido como prioritário, perde em significado e dinâmica se não souber libertar-se de lógicas meramente económicas e mercantis”, escreve no site.

Ricardo Pinto diz ainda que este festival vai trazer um melhor conhecimento mútuo, uma maior troca de experiências em todas as áreas, uma nova linguagem comum de afectos, essenciais para que este relacionamento privilegiado se aprofunde de forma sólida e duradoura, daí resultando também os benefícios para a economia e o bem-estar desejados por todas as partes.
“Associado desde o primeiro momento à celebração do 20º aniversário do jornal “Ponto Final”, um dos organizadores do evento, o Festival vai também assinalar factos bem relevantes de um passado próximo. Entre eles, o desaparecimento do escritor macaense Henrique de Senna Fernandes e da grande cantora cabo-verdiana Cesária Évora, e a elevação do Fado a Património Imaterial da Humanidade. Todos terão neste evento a justa homenagem”, lê-se.

Ricardo Pinto escreve que não estando excluída a possibilidade de em futuras edições o Festival se abrir a escritores e outros artistas de diferentes paragens, tanto a Leste como a Ocidente, “A Rota das Letras” terá sempre como marca identitária a promoção do intercâmbio cultural entre a China e a Lusofonia.

Do programa do festival constam, entre outras actividades, a realização de uma seminário de escrita criativa com Xu Xi; sessão de Abertura seguida do primeiro painel – Países de Língua Portuguesa e China, um romance; apresentação de livro e sessão de autógrafos com Xu Xi; projecção do filme “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes. Com a presença do realizador e do autor da banda sonora, Noiserv, projecção do filme “Macau Love Stories”, com a presença do produtor Albert Chu e dos realizadores Harriet Wong e Fernando Eloy; apresentação de livros e sessão de autógrafos com Paulo Aido e Marvin Farkas, e concerto de Aldina Duarte – Tributo ao Fado, Património Imaterial da Humanidade.

A inauguração de exposições dos artistas Mito Elias, Lino Damião e de duas colectivas de Macau e do Delta do Rio das Pérolas; o concerto de Nancy Vieira, com Noiserv e Andreia Dacal, e a projecção do filme “Sadness”, de Tony Ayres, seguida de palestra do realizador sobre escrita para cinema, também fazem parte do programa.
Em Portugal, Lino Damião, com Nelo Teixeira, expõem na 1ª Paragem: Lisboa, visitada por cerca de 500 pessoas desde a sua inauguração. A data do seu encerramento foi prolongada até 10 de Fevereiro.

O grande jogo económico e social brasileiro

Foi agora reeditado em Portugal o grande romance de um dos maiores escritores brasileiros, Rubem Fonseca. "A Grande arte" ajuda-nos a perceber melhor o mundo urbano do Brasil.

Alguns escritores sobrevivem a todos os ciclos. Não sentem o passar das estações. E continuam modernos com o passar dos anos. Rubem Fonseca descobriu essa rara fonte da juventude e alterou para sempre o romance brasileiro: trouxe-lhe tempestade criativa e colocou-a nas grandes cidades, fazendo um parêntesis no universo da escrita de alguns como Jorge Amado que olhavam para o interior do Brasil.

Nas cidades frias criou personagens que são como elas. Nenhuma das suas personagens está presa à diplomacia das palavras: são espíritos livres que só querem sobreviver num mundo sem leis reais e que destrói os mais fracos. A escrita de Rubem Fonseca parece não envelhecer, como prova a reedição de uma sua obra fundamental, "A Grande Arte". Está aqui todo o mundo de Fonseca, a partir do assassinato de uma prostituta a quem foi desenhado um "P" na face.

Mas a morte serve sobretudo para olharmos para a decadência económica e moral da sociedade. Tudo é vazio em "A Grande Arte", começando pelas pessoas, inúteis numa guerra que nunca vencerão. O advogado (e detective) Mandrake está perdido no Rio de Janeiro e tenta encontrar-se. É o Rio de Janeiro antes da grande decadência dos anos de 1980. É isso que torna este livro único.

Cormac McCarthy e sua arte peculiar de contar grandes histórias

Cormac McCarthy
Ele é o autor de "Onde os Fracos Não Têm Vez" e "A Estrada".


Você já parou para pensar no que motiva um escritor criativo a fazer um filme sobre faroeste? Daqueles onde o mais forte sobrevive e a cidade tem aquele feno que percorre o cenário perfeito de uma terra sem lei? Ou o que levaria alguém a escrever sobre um filme apocalíptico? Onde tudo o que sobrou de uma família foi o pai e seu filho pequeno? Para Cormac McCarthy, a resposta, dada uma entrevista concedida a Oprah, é muito simples: “eu não preciso de um motivo, apenas quero contar uma história”.
O autor, que publicou “Onde os Velhos Não Tem Vez”em 2005, caiu nas graças dos críticos à época do lançamento, mas  só foi descoberto pelo grande publico com a adaptação cinematográfica da sua obra para o cinema em 2007. O tema? O velho oeste. Mesmo com um tema tão adverso para um romance hoje em dia, o livro fez sucesso e chamou a atenção dos Irmãos Coen. E dois anos depois chegaria às telas do cinema sob o título, no Brasil, de “Onde Os Fracos Não Tem Vez”. Em seu elenco o filme conta com Tommy Lee Jones (“Capitão América: O Primeiro Vingador”), Javier Bardem (“O Amor nos Tempos do Cólera”) e Josh Brolin (“Bravura Indômita”). Vencedor de quatro Oscar, incluindo melhor filme em 2008, o longa baseado na obra de McCarthy levaria ainda mais 75 prêmios internacionais.
Em 2006 o autor foi agraciado com o Pulitzer de Literatura por “A Estrada”. Uma adaptação ganharia as telas em 2009. Com direção de John Hillcoat, roteiro de Joe Penhall (“O Último Rei da Escócia”), o filme seria estrelado por Viggo Mortensen (“O Senhor dos Aneis: O Retorno do Rei”) e Kodi Smit-McPhee (“Deixe-me Entrar”). Ainda em 2006, McCarthy publicaria a peça “The Sunset Limited”, que seria adaptada para TV. Em fevereiro de 2011, a série de mesmo nome seria produzida e dirigida por Tommy Lee Jones. O elenco do seriado também conta com Samuel L. Jackson.
Em 2010, o The Times colocou “A Estrada” ocupando o primeiro lugar na sua lista de 100 melhores livros de ficção e não-ficção dos últimos 10 anos. Frequentemente comparado pelos críticos modernos a William Faulkner, McCarthy tem sido muito cotado a ser o próximo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Mas não é apenas isso. A vida literária do autor é um mais extensa. Outras obras também ganharam destaque no cenário literário como A trilogia da Fronteira. Que tal conhecer um pouco mais dessa caminhada do autor?
                                                    McCarthy ao lado dos irmãos Coen.

Terceiro filho do casal Charles Joseph e Gladys Christina McGrail McCarthy, Cormac nasceu em Rhode Island, em 20 de julho de 1933, onde morou até os quatro anos de idade. Em 1937, a família se mudaria para Knoxville, no Tennessee, onde seu pai trabalharia como advogado do Tennesse Valley Authority. Com um pai sempre em busca de melhores condições, para ele e os cinco irmãos, em 1967 os McCarthy novamente se mudariam, dessa vez para Washington, onde seu pai trabalharia em uma firma de advocacia até sua aposentadoria.
Porém, nem só de mudanças de estado viveu o nosso autor nesse período. Em 1951, Cormac foi para a universidade do Tennessee estudar artes, o que não durou muito, pois em 1953 ingressava para a  Força Aérea Americana onde serviu durante quatro anos. Mesmo assim, o autor viu durante dois anos a oportunidade de pôr em prática seu lado criativo, ao ser encarregado de um programa de rádio no Alaska. Passado o serviço militar McCarthy voltaria a Universidade do Tennessee, onde publicaria duas historias no The Phoenix e ganharia o The Ingram-Merrill Award por escrita criativa em 1959 e 1960.
O primeiro romance do autor, “The Orchad Keeper”, foi publicado pela Random House em 1965. McCarthy contou, em uma das poucas entrevistas que concedeu, que decidiu enviar o script para Random House porque “era a única editora da qual ele tinha ouvido falar”. Já na editora, o manuscrito encontrou seu caminho nas mãos de Albert Erskine, que foi editor, também, de William Faulkner até a sua morte em 1962. Erskine continuou a editar o trabalho de McCarthy pelos próximos 20 anos.
                                                McCarthy com o diretor John Hillcoat.

Foi também durante o verão de 1965, usando o dinheiro da bolsa de estudos da American Academy of Arts and Letters, que McCarthy embarcou no navio Sylvania, esperando visitar a Irlanda e acabou se apaixonando. A bordo, conheceu Anne DeLisle, que trabalhava como cantora no navio. E no ano seguinte já estavam casados. Anne seria a primeira de um total de três esposas. Em 1966, McCarthy recebeu uma bolsa da Rockefeller Foundation, a qual ele usou para viajar pelo sudeste europeu antes de chegar a Ibiza, onde escreveu seu segundo romance, Outer Dark. Logo após ter retornado à America com sua esposa, Outer Dark foi publicado ganhando aprovação da crítica.
Pacato e sempre prezando por sua privacidade, McCarthy se mudou, em 1969, para Louisville, Tennessee. Lá comprou, juntamente com a esposa, uma fazenda, a qual ele reformou e executou todo o trabalho pesado. Aqui ele escreveu seu próximo livro, Child of God, baseado em fatos reais. O livro foi publicado em 1973 e, assim como o anterior, Outer Dark, a história se passa no da Appalachia. Em 1976, McCarthy se separou de Anne DeLisle e se mudou para El Paso, Texas, onde escreveria e publicaria, três anos depois, seu romance “Suttre”, no qual esteve trabalhando em paralelo nos últimos doze anos.  Vivendo da bolsa que recebeu em 1981 da MacArthur, escreveu seu próximo romance, “Blood Meridian, or The Evening Redness in the West”, o qual foi publicado em 1985. O livro ganhou seu espaço no circuito literário.
Em 2006, uma equipe de autores e editores foi convidada pelo The New York Times para listar os melhores livros americanos publicados nos últimos 25 anos. “Blood Meridian” ficou em terceiro lugar, atrás apenas de “Beloved”, de Toni Morrison, e “Underworld” de Don DeLilo.
Mas foi apenas em 1992 que McCarthy finalmente conseguiu seu reconhecimento. “Todos os Belos Cavalos” chegaria às livrarias e com ele viria o National Book Award e o National Book Critics Circle Award. Seguido por “A Travessia” e “A Cidade das Planícies”, o livro completa o que o autor chamou de trilogia da Fronteira.
Atualmente, McCarthy está trabalhando em três novos livros. Um se passa em 1980 em New Orleans e conta a história de um homem que tenta lidar com o suicídio da irmã. Segundo o autor, esse será seu primeiro trabalho em que a história gira em torno de uma personagem feminina. McCarthy atualmente mora em Tesuque, Novo México, área ao norte de Santa Fé, com a sua esposa Jennifer Winkley e seu filho John.

Autobiografia de Gil Scott-Heron será lançada em janeiro

'The last holiday: a memoir' traz as memórias do músico norte-americano. Considerado o 'padrinho do rap', morreu em maio deste ano, aos 62 anos.

"The last holiday: a memoir", autobiografia do músico americano Gil Scott-Heron, será lançada em 16 de janeiro — a data coincide com o Martin Luther King Jr. Day nos Estados Unidos, feriado nacional em homenagem ao líder negro assassinado em 1964.

No livro, o músico, que morreu em maio último, aos 62 anos, conta detalhes sobre sua atuação no movimento pró-direitos civis, assim como a turnê com Stevie Wonder entre 1980 e 1981, entre outras memórias.

Scott-Heron se tornou pioneiro da cultura hip-hop em 1971, com a música "The revolution will not be televised", na qual recorria à palavra falada para atacar a superficialidade dos meios de comunicação de massa e sugerir que as histórias verdadeiramente interessantes estavam fora do alcance midiático.

Anos depois, essa provocativa mensagem inspirou dezenas de cantores de rap, de Common e Public Enemy a Kanye West, que utilizou fragmentos das canções de Scott-Heron para compor suas próprias músicas.

Nascido em Chicago, Scott-Heron cresceu no Tennessee e no Bronx, onde teve contato com o blues e a literatura, já que sua mãe era bibliotecária.

Padrinho

Embora tenha afirmado em muitas ocasiões que se considerava um pianista, era ao mesmo tempo poeta e romancista, além de um ideólogo radical negro que para compor se inspirava no movimento, no tempo, nos lugares e nas mudanças de estação — sua fusão entre ativismo político, versos recitados e percussões minimalistas valeu-lhe o apelido de "padrinho do rap".

Entre as mais de 120 canções que compôs, destacam-se o primeiro hino negro americano contra o apartheid na África do Sul, "Johannesburg", e a música sobre o alcoolismo contemporâneo "The bottle".

Scott-Heron foi ainda professor de escrita criativa, poesia e romance na Universidade de Johns Hopkins e na do Distrito de Columbia, ambas na capital americana.

UNESCO desafia alunos a encontrar soluções para salvar a Terra

Maria Helena Henriques
Ideias mais criativas vão constar no último capítulo de «Terra Vita Sadia».

A UNESCO acaba de lançar um concurso dirigido às escolas públicas do 1º 2º e 3º ciclo de Lisboa onde os alunos são convidados a encontrar, nos próximos seis meses, soluções para a saúde do planeta Terra. As propostas mais criativas vão constar no último capítulo de uma narrativa intitulada «Terra Vita Sadia».

Segundo Maria Helena Henriques, uma das autoras do livro, trata-se de um “projecto educativo, centrado em problemáticas ambientais de relevância social, que visa estimular crianças e jovens a adoptar comportamentos sustentáveis no seu quotidiano”, a partir do desafio de terminar, de forma criativa, o último capítulo da narrativa ficcional. Esta narrativa foi escrita para um público infantil, a versão «Terra Vita Sadia – Infantil», e para o juvenil, o «Terra Vita Sadia – Juvenil». Ambas edições terão versões em Braille.

A ideia para o projecto surgiu da vontade de “mudar comportamentos e atitudes”, explica a autora. “A nossa ideia é que isso é estimulado se tais comportamentos e atitudes forem sugeridos e promovidos pelos próprios alunos. De que serve proibir algo, se não se entender porque é que é importante não o fazer? Envolvendo os alunos nas narrativas é a melhor forma de promover mudanças de atitudes, mas também de comportamentos”, diz.

Para Maria Helena Henriques, há várias formas de ajudar a Terra no nosso quotidiano que se podem por em prática logo de manhã e que “têm a ver genericamente com redução nos consumos de água e de combustíveis”, por exemplo. “Mas há outros desperdícios, que esperamos que os alunos os identifiquem e que fazem parte do seu quotidiano. Será que todos usam um lápis e um caderno até ao fim?”, questiona retoricamente.
Aproximar ciência dos cidadãos
O projecto «Terra Vita Sadia», de acordo com Maria Helena Henriques, relaciona-se com o Ano Internacional da Química e, nessa perspectiva, visa aproximar essa ciência de todos os cidadãos.

“A mitigação dos problemas ambientais actuais requer que os cidadãos tenham um conhecimento mínimo de ciências para as poderem enfrentar. Por isso, a Assembleia-geral das Nações Unidas tem proclamado sucessivos anos internacionais (da Terra, da Biodiversidade, da Química, etc.), que visam aproximar essas ciências de todos os cidadãos”, explica.

Nesse contexto, «Terra Vita Sadia» sucede a outras edições anteriores destinadas a um público infanto-juvenil e que remetem para narrativas semelhantes às das fábulas, mas com fins moralizadores relativos a questões mais contemporâneas, como as que se referem a comportamentos sustentáveis. "Para compreender tais questões, é necessário compreender a importância do conhecimento em química, tal como em outras ciências, e compreendê-los de forma articulada”.
Sobre o concurso
O concurso da UNESCO intitulado «A Química entre Nós» aceita inscrições das escolas públicas de Lisboa até ao dia 27 de Janeiro e os trabalhos individuais ou colectivos (máximo de 30 alunos) deverão ser entregues até ao dia 27 de Abril de 2012.

Os trabalhos, apresentados em formato de texto ou de arte plástica, deverão reflectir a criatividade dos jovens bem como a relevância das temáticas abordadas, o espírito crítico, o rigor e a originalidade da mensagem. Serão ainda considerados nesta avaliação os comportamentos ou atitudes mais ou menos sustentáveis dos jovens durante a execução das obras, bem como o tipo de materiais utilizados, privilegiando-se os reciclados.

As candidaturas podem ser feitas aqui.
 
Susana Lage

Macau na rota das letras


O primeiro festival sino-lusófono de literatura do território acontece em Janeiro. Há já dez autores convidados para o evento. Entre estes, estão o escritor chinês Su Tong e o português José Luís Peixoto.

A ideia é colocar Macau na Rota das Letras, num evento que pretende reunir escritores e outros agentes da actividade editorial literária, e impulsionar novas edições e traduções. O primeiro encontro de escritores chineses e lusófonos no território vai realizar-se entre os dias 29 de Janeiro e 4 de Fevereiro, já com dez autores confirmados e um programa alargado que acolhe debates, exposições, concertos, workshops e a exibição de alguns filmes.

O Festival Literário de Macau, organizado pelo PONTO FINAL e pela Sociedade de Artes e Letras (SAL) por ocasião do 20º aniversário deste diário, tem já assegurada a presença do escritor Su Tong, distinguido com o Man Asian Literary Prize em 2009, de Jade Y. Chen, romancista de Taiwan, e de Annie Baobei, uma das autoras mais lidas do Continente. De Portugal, chegam José Luís Peixoto, José Rentes de Carvalho, Alice Vieira, Rui Cardoso Martins e José Rodrigues dos Santos. E as letras do Brasil também têm representação com Tatiana Salem Levy e Luís Fernando Veríssimo.

O programa do festival ainda não está fechado – o alinhamento completo será dado a conhecer no início de Janeiro – e a organização pretende ainda incluir expressões lusófonas do continente africano. Os convites já foram lançados a alguns autores e aguarda-se a confirmação.

A organização fez saber também que pretende encetar contactos com associações de escritores de Macau, Hong Kong e Zhuhai, com vista à participação de autores locais e da região no evento.

“Sentimos que há pouco conhecimento recíproco das literaturas produzidas pelas diferentes comunidades de Macau”, afirmou Ricardo Pinto, administrador deste jornal e da SAL, manifestando o objectivo de criar uma plataforma de contactos de parte a parte no encontro sino-lusófono de literatura.

A organização espera que o evento “tenha resultados para o futuro, nomeadamente, no campo das edições”. Todos os autores participantes no festival irão, após a estada no território, escrever um conto sobre Macau. Os diferentes trabalhos serão depois reunidos num volume bilingue ou editados separadamente nas duas línguas oficiais da região, o português e o chinês, para lançamento em 2013, aquando da segunda edição deste festival que pretende ter carácter regular.

Outras das iniciativas do evento consiste no lançamento de um concurso de contos. O vencedor será publicado conjuntamente com os autores convidados para o encontro.

Além disso, vai haver sessões de formação em que participarão alguns escritores que integram o festival e também dois outros autores de Macau. “Vamos ter alguns workshops, nos quais alguns destes autores partilharão as suas experiências e darão formação sobre escrita criativa”, revelou Ricardo Pinto.

O Festival Literário de Macau assinala duas décadas desde a criação do PONTO FINAL. “Faz falta aos nossos leitores terem contacto com a actualidade literária em Macau”, defendeu ontem a directora desta publicação, Isabel Castro, sobre a orientação editorial do jornal de dar espaço às artes e à cultura – “um trabalho que está expresso no Parágrafo, mas também no quotidiano”, assinalou.

O Instituto Português do Oriente (IPOR) também intervém na coordenação do encontro. Ana Paula Dias, do organismo, defendeu que o festival “é uma ideia que deve ter continuidade”.

Hélder Beja, da organização, defendeu também que o evento deixará “um legado”, ao garantir a publicação de novos contos sobre Macau e um novo volume editorial de publicação local. “É um legado quase inestimável, porque poderá fixar Macau dos nossos dias pela mão dos escritores que participam”, sublinhou.

Além do programa de debates em torno da literatura, estarão presentes alguns realizadores. Miguel Gonçalves Mendes, que dirigiu o documentário “José e Pilar”, Tony Ayres, realizador e guionista sino-australiano, nascido em Macau, e Pang Ho-cheung, autor da película “Isabella”, marcam presença.

Uma das exposições do evento também já asseguradas exibirá uma retrospectiva do trabalho do ilustrador português André Carrilho, cuja carreira teve início há 20 anos neste diário.

Os concertos musicais serão outro ponto alto, prevendo-se a realização de dois espectáculos que juntem músicos de Portugal, Brasil, Continente e Macau. A organização espera alcançar uma audiência de quatro mil pessoas.

Universidade do Minho cria prémio literário em Moçambique

A Universidade do Minho, através da Fundação Carlos Lloyd Braga, e a organização não-governamental portuguesa Karingana Wa Karingana acabam de criar um prémio nacional literário em Moçambique.

O concurso tem apoio do Ministério da Educação daquele país africano e visa distinguir contos ou novelas inéditos de jovens pré-universitários. O júri é presidido pelo conceituado escritor Mia Couto.

O autor vencedor terá direito a uma bolsa de estudos de licenciatura por três anos na UMinho e as três melhores obras a concurso vão ser editadas em todos os países lusófonos, “com vasta cobertura e estímulo à sua leitura”. O valor monetário do “Prémio Literário Karingana Wa Karingana/Universidade do Minho” torna-o um dos maiores prémios literários em Portugal.

Tem como grande objetivo fomentar a escrita criativa dos jovens e o uso do português enquanto língua de cultura e de enorme tradição literária, explica o presidente da Fundação Carlos Lloyd Braga, professor Luís Couto Gonçalves. As candidaturas estão abertas até maio para os alunos que terminaram a 12ª classe do ensino secundário em Moçambique no final de 2010 ou 2011. O júri anuncia o trabalho premiado em setembro, estando a entrega solene marcada para 17 de novembro de 2012, na UMinho.

Este prémio literário surge na sequência da doação recente de 140 mil livros às bibliotecas e escolas mais carenciadas de Moçambique. A campanha de recolha decorreu nos últimos meses em Portugal, na qual participou também a comunidade académica da UMinho. A campanha foi organizada a nível nacional pela Karingana Wa Karingana ("Era uma vez"), com apoio da Fundação Carlos Lloyd Braga, que é sua sócia fundadora.

GRANDE REPORTAGEM: Uma rosa para Danielle

Danielle Mitterrand, uma mulher admirável
A escritora Simone de Beauvoir abre seu livro referencial sobre o mito feminino, "O Segundo Sexo" (A Experiência Vivida), com uma frase lapidar: "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher".

A expressão da pensadora francesa pode servir para muitas outras figuras do gênero, em várias regiões do planeta. No entanto, se encaixa com perfeição máxima no perfil de duas grandes mulheres da França: no da própria autora, que partiu há décadas, e no de Danielle Mitterrand, a militante "gauche" das causas humanitárias - para alguns "das causas perdidas" -, que morreu esta semana em um hospital de Paris, aos 87 anos.

Uma existência exemplar e relevante sob qualquer aspecto. Na política, nas relações humanas, na resistência ou embates sociais. Na generosidade extrema com as pessoas e com os povos de tantos países. Com a América Latina em geral e com o Brasil em particular, onde ela esteve inúmeras vezes (com o marido François Mitterrand ou sozinha na maioria dos casos).

A morte da ex-primeira dama da França durante 15 anos (embora ela não gostasse nem um pouco de ser chamada assim), e principalmente a sua história como polêmica militante e mulher sempre presente e atuante, merecia na despedida mais atenção de defensores e adversários das suas ideias e práticas.

Danielle Mitterrand, ao ganhar outra dimensão como acreditam os espiritualistas, merecia as honrarias do governo da petista, mulher e ex-guerrilheira Dilma Rousseff; os discursos mais vibrantes dos políticos ditos "de esquerda", "socialistas" ou "progressistas" no poder. Merecia igualmente espaços mais generosos da imprensa brasileira.

Salvo raríssimas exceções, o que se viu esta semana? Uma sonora indiferença diante deste fato que teve expressivo destaque informativo e honras póstumas governamentais e políticas na Europa, na maioria dos países latino-americanos e em outras regiões do resto do mundo. Uma pena de dar vergonha aos que ainda não perderam a memória!

Por dever de justiça vale assinalar nestas linhas escritas na Bahia a imagem quase solitária da deputada Janete Capiberibe (PSB/AP) na tribuna da Câmara dos Deputados, em Brasília. A parlamentar socialista elevou a voz para despertar o sonolento plenário em situações iguais a essa fora de pauta (que não envolvem polpudas verbas públicas ou espúrios "acordos de governabilidade") para prestar homenagem a Danielle Mitterrand, morta na madrugada de terça-feira, 22.

Em seu nome e do senador João Capiberibe, seu marido, Janete dirigiu emocionada mensagem à Fundação France Libertés, dirigida por Danielle até a morte. "Ela dedicou sua vida à causa dos oprimidos, foi-nos apresentada pelo casal Alain e Francoise Ruellan em 1997 e, a partir daí, tornou-se nossa amiga e amiga do Amapá", destacou a parlamentar.

Através de sua organização não-governamental ela financiou inúmeros projetos de desenvolvimento na África, na Ásia, na América Latina . No Brasil, dentre outros lugares (como a Bahia), o Amapá, recordou Janete Capiberibe.

Lembro da visita de Danielle a Recife em 1989, na companhia do marido François Mitterrand. Então, Miguel Arraes governava Pernambuco pela segunda vez, depois de retornar de largo exílio. Foi marcante a honrosa, afetuosa e agradecida recepção que o casal recebeu na capital pernambucana. De seus governantes, de seus políticos e de seu povo.

Mais recentemente, Danielle esteve duas vezes na Bahia, em 2008 e no ano passado, respectivamente. Em uma das vezes foi homenageada pela Universidade Federal da Bahia, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa, por sua contribuição através da France Libertés à ciência e às pesquisas no Estado, principalmente na área do cacau. E aplausos de professores e alunos da UFBA por sua luta em defesa da justiça e dos direitos humanos.

Palmas merecidas, bem merecidas de verdade. Nascida em Verdun, em 1924, de pais professores de escola pública, começaria a atuar aos 16 anos na resistência contra a ocupação nazista ao seu país. "Eu tive que sair da minha indiferença para medir a minha capacidade de revolta contra a injustiça, a que sofreram os meninos judeus meus colegas de escola, e a que sofreu meu pai, afastado do magistério por não entregar a lista com seus nomes pedida pelos nazis", contou Danielle Mitterrand em entrevista ao Le Monde.

Era o começo apenas da longa e aguerrida militância "daquela jovem garota, formosa e com uns olhos de gata admiráveis, fixos além dos limites e acidentes os quais ignoro", como descreveu um apaixonado François Mitterrand.

O mais este espaço é pequeno para caber. Mas está tudo registrado na história da França, da Ásia, da África, da América Latina, nos inumeráveis relatos sobre a vida desta mulher extraordinária chamada Danielle Mitterrand.

Ou nas imagens poderosamente tocantes do momento em ele acolhe com altivez e doce generosidade na hora do sepultamento do marido, a filha de Mitterrand fora do casamento, que ela não conhecia e nem sabia da existência.

Agora, na despedida, só resta a exemplo "das flores dos anônimos" depositadas na calçada da residência do casal quando da morte de François, deixar também minha rosa vermelha no tumulo de Danielle Mitterrand.

Que mulher!

“Oficina Saramago” cria espaços de reflexão sobre a vida e obra do autor

Esta segunda-feira, dia 21 de Novembro, foi apresentado, na Casa do Alentejo, em Lisboa, o projecto “Oficina Saramago”, que se irá prolongar até Novembro de 2012.
Sob a coordenação da Câmara Municipal do Barreiro, da Câmara Municipal da Moita, da Cooperativa Cultural Popular Barreirense e da Escola Secundária de Santo André, este ano será preenchido por uma série de acções e iniciativas que têm como objectivo a criação de espaços de reflexão, questionamento, análise e crítica sobre a obra deste emblemático autor português.
No próximo dia 28 de Novembro, terá lugar a conferência de abertura deste projecto, proferida por Pilar del Rio, Presidenta da Fundação José Saramago, e será então nesta altura divulgado o programa com as actividades que dão vida a este projecto.
Exposições temáticas de artes plásticas, conferências, oficinas de leitura, teatro, poesia encenada, escrita criativa, actividades diversas em escolas do 1º ciclo ao 12º ano e a reedição da brochura “O Sabor da Palavra Liberdade” (editada em 1992), são apenas algumas dessas actividades.
A juntarem-se à de abertura estão ainda cinco outras conferências, com a Prof. Susana Ventura, da Universidade de São Paulo (a 29 de Fevereiro); a Prof. Dra. Graciete Besse (01 de Junho); o Prof. Dr. Miguel Real (10 de Dezembro); e a Prof. Dra. Ana Paula Laborinho, Presidente do Instituto Camões (ainda em data a definir).
A conferência de encerramento da “Oficina Saramago” acontecerá dia 16 de Novembro de 2012, e será proferida pela Prof. Dra. Maria Alzira Seixo.
Na conferência de Imprensa de hoje – que contou com a presença de Carlos Humberto de Carvalho, Presidente da Câmara do Barreiro e de Arlete Cruz, Directora da Escola Secundária de Santo André – Carla Marina, Vice-presidente da Direcção da Cooperativa Popular Barreirense. realçou o quão espantada a organização desta iniciativa ficou com a adesão dos parceiros.
A “Oficina Saramago” pretende que se regresse a José Saramago, à sua escrita e às suas causas. Pretende trazer Saramago para a rua, para que a reflexão não seja feita a portas fechadas.

Jornal Hardmusica

Femina de melhor livro estrangeiro editado pela Matéria-Prima

O vencedor do Prémio Femina de melhor livro estrangeiro, «Say Her Name», de Francisco Goldman, será editado em Portugal no primeiro semestre de 2012 pela Matéria-Prima Edições.

«Francisco Goldman, um escritor aclamado pela crítica, sempre se considerou uma pessoa com pouca sorte no amor e um resistente a compromissos. No entanto, tudo mudou quando conheceu Aura Estrada, uma belíssima estudante de escrita criativa, cuja força de viver o arrebatou e ambos acabaram por casar em 2005.

Um mês antes de completarem 2 anos de casamento e durante umas férias muito aguardadas, Aura morre, na sequência de ferimentos provocados por um acidente no mar.

Culpado pela família de Aura e sentido-se, ele próprio, responsável pela morte da mulher amada, Francisco Goldman desejou morrer também. No entanto, e como processo de superação da dor, Francisco Goldman começou a escrever.

Em «Say Her Name», Francisco Goldman conta-nos a história de Aura e da sua vida em conjunto, da forma como ambos regiam a sua vida pela busca do inesperado, da beleza e da inspiração.

Apesar da diferença de idades, Francisco e Aura viveram um amor jovial num mundo próprio, criado pelo amor se sentiam um pelo outro», revela num comunicado a Matéria-Prima, que acresenta que «Say Her Name» é uma obra «sobre o amor e a perda, sobre o destino, sobre responsabilidades e sobre a forma como a arte escolhe os que a servem e, neste caso específico, juntou duas almas perdidas».

Compliance, criatividade e inovação são temas de livros da Trevisan Editora para 2012

Dois livros ligados ao mundo dos negócios estão previstos para serem lançados em janeiro de 2012, pela Trevisan Editora. Criatividade e inovação na empresa: do potencial à ação criadora, de Stela Maris Sanmartin e David de Prado, e uma outra obra sobre Compliance, escrita por Ana Paula Candeloro, devem sair no início do próximo ano.

A elaboração do livro Criatividade e inovação na empresa partiu de um interesse da Trevisan em investir na formação direcionada de profissionais de negócios para empresas comprometidas com o futuro que, cada vez mais, necessitam da criatividade e inovação paraatender as demandas do mercado. A obra oferece uma boa base de conhecimentos em criatividade, além de sua inserção no contexto das organizações.

A ideia de escrever sobre um livro sobre Compliance partiu de uma observação dos autores de que faltava matéria de pesquisa no mercado literário, especificamente nesta área. Segundo a professora e gestora da Trevisan Editora, Juliana Quintino de Oliveira, “há uma escassez de livros que se pautem na integração dos assuntos de governança corporativa e Compliance, Auditoria, Riscos Operacionais e Controles Internos”.

Para a professora Juliana, “é preciso uma literatura que traga o tema mais próximo dos casos do dia-a-dia, que exemplifique conceitos por meio de estudos de caso e que seja mais acessível em termos de linguagem”.

A Trevisan Editora, que está de volta ao mercado, vai manter o foco de suas obras no mundo dos negócios. O grande diferencial dessa nova fase é a publicação de livros com alto grau de aplicabilidade prática, como os especificados acima.

Trevisan Editora
Assessoria de Imprensa: Ricardo Viveiros & Associados – Oficina de Comunicação www.viveiros.com.br
Jornalista responsável: Marília Ramires
Assistente: Fernando Henrique
Tel: (11) 3675-5444

Vencedor do Prémio Agustina Bessa-Luís começou a escrever o romance aos 19 anos

Tiago Manuel Ribeiro Patrício, 32 anos, vencedor do Prémio Revelação Agustina-Bessa Luís com o romance "Trás-os-Montes", afirmou que começou a escrevê-lo "quando tinha 19 anos" quando tentou melhoria de nota para entrar na Universidade.



Por não ter conseguido entrar no curso de Medicina, Tiago Patrício decidiu melhorar a média de acesso e começou a escrever o romance.

"Foi nesse ano sabático que comecei o meu primeiro romance, onde quis meter tudo, desde a primeira infância até à véspera, com mais de trinta personagens e histórias paralelas dos meus avós e bisavós. Era um texto em que queria justificar coisas, reabilitar-me", contou.

"Havia muitos diálogos ingénuos e sem fulgor nenhum, mas ficou o substrato daquela tentativa de escrever aos 19 anos um longo romance", referiu.

Natural do Funchal, Tiago Ribeiro Patrício considerou nesse ano "aceitável a opção de passar um ano em casa a ler, todos os livros da biblioteca municipal".

"Lia três a quatro livros por semana, daquela coleção `Dois Mundos` [Livros do Brasil], desde Steinbeck, Camus, Hemingway, até Marguerite Duras, André Malraux, Kundera e Vergílio Ferreira, cujo texto `Aparição`, de leitura obrigatória no 12.º ano, intensificou a minha relação com a literatura e levou-me, pela primeira vez, a querer tentar escrever", disse.

No ano seguinte voltou a falhar a entrada na Faculdade de Medicina e foi para a Escola Naval "por questões hereditárias".

"Quase todos os meus tios passaram pela Marinha de Guerra e, além disso, achava que a única maneira de regressar ao Funchal, a cidade onde vivi até aos nove meses, seria a bordo de um navio", disse o autor.

"Durante a infância em Trás-os-Montes, eu era o único que tinha andado de avião, que tinha visto o mar e que tinha nascido fora daqueles 30 quilómetros quadrados em redor da aldeia. Acho que desenvolvi uma certa obsessão pelo Funchal e pela ilha da Madeira e, por vezes, usava isso como ponto de fuga e dizia: `Eu nem sequer sou daqui, o meu lugar é numa cidade grande no meio do mar e não aqui no meio dos montes`. Mas, apesar de rodeado de terra, Trás-os-Montes foi e é ainda um conjunto de ilhas isoladas".

Regressou ao Funchal, aos 20 anos, incorporado na fragata Baptista de Andrade.

Na Escola Naval nas "muitas horas de ócio, aproveitava para voltar à escrita do romance e à poesia". "Havia alturas em que escrevia um poema por dia, sempre em soneto", recordou.

Em 1999, a "carreira definida até ao fim da vida e com todos os privilégios de um oficial de Marinha" não se lhe mostrou atrativa e, em finais de 1999, ingressou na Faculdade de Farmácia de Lisboa. Concluiu o curso em 2007, no meio de "muitos projetos paralelos".

Em 2001 fez escrita criativa na Aula do Risco e realizou vários cursos de aperfeiçoamento em imprensa no CENJOR, entre 2001 e 2003. Integrou a equipa do jornal Os Fazedores de Letras, de 2002 a 2007, e escreveu para o suplemento "DNJovem" durante o mesmo período.

Faz teatro desde 2000 e foi um dos fundadores do Grupo de Teatro Com-Siso, com várias peças apresentadas de 2002 a 2005.

Em 2006, entrou para o Grupo de Teatro de Letras, onde fez formação intensiva com Ávila Costa e com o qual mantém, até hoje, uma estreita ligação.

Poemas seus foram publicados nas coletâneas "Jovens Escritores" do Clube Português de Artes e Ideias (CPAI), entre 2007 e 2010.

Deixou entretanto de escrever sonetos e adoptou o verso livre, "depois de ler Fernando Pessoa, Ruy Belo, Mário Cesariny, Herberto Helder, João Miguel Fernandes Jorge e Al Berto".

Em 2007, já pai de um filho, fez a sua primeira residência em Praga, através do CPAI, que assegura ter sido "decisiva": "Deu-me a entender que podia viver para a escrita. Mesmo sem saber se seria possível viver da escrita".

"Depois da segunda residência em Praga, no outono de 2010, decidi preparar, finalmente, o meu primeiro romance, porque já era tempo e estava na altura de concorrer ao prémio Agustina Bessa-Luis".

Quanto ao original que o júri escolheu por unanimidade revelou: "Entre as 400 páginas do manuscrito inicial, concentrei-me no final da infância das personagens e, a partir daí, desliguei-me da história biográfica e tentei dar-lhes a autonomia que eu considerava essencial, para construir uma série de momentos de tensão narrativa e de algum fulgor poético".

"Nessa altura já tinha lido mais de dez livros da Agustina [Bessa-Luís] e de [António] Lobo Antunes, já tinha estudado a obra da Maria Gabriela Llansol e analisado quase todos os livros do Gonçalo M. Tavares".

Ao lado das referências portuguesas há "os romances curtos de Peter Handke, Ian McEwan, Samuel Beckett, Virgínia Woolf, Clarisse Lispector, Flannery O`Connor e o teatro de Jean-Paul Sartre, Heiner Müller e George Büchner [que] também ajudaram a tecer as linhas mestras desta narrativa", recordou.

"Desde o princípio que tentei manter uma atmosfera densa mas de leitura fluida e apostar numa riqueza formal, com um trabalho sobre a própria linguagem, sem perder a noção de economia narrativa. Porque em tempos de austeridade é necessário poupar nas palavras, mas sem abandonar o tom que seduz o leitor e mantém o texto à distância da simples ilustração quotidiana".

Tiago Patricio, a par do curso de poesia no Hospital Psiquiátrico do Telhal e da residência artística no Estabelecimento Prisional do Linhó, trabalha na farmácia de Laveiras (Oeiras) e está ainda a preparar um mestrado em Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Lisboa.

São Tomé e Príncipe organiza bienal de arte e cultura

O chefe de Estado são-tomense alertou “que é preciso preservar, gerir criar condições de melhor fruição, sob pena de se perder irremediavelmente os fundamentos da são-tomensidade”.


São Tomé - O Presidente são-tomense, Manuel Pinto da Costa, inaugurou terça-feira a sexta bienal internacional de arte e cultura, que reúne músicos e artistas da lusofonia até 30 de novembro.

No ato de inauguração do evento na Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopia (CACAU), no centro de São Tomé, Manuel Pinto da Costa disse que “este encontro e partilha das culturas e das artes da Lusofonia, das culturas e das artes do mundo é um momento ímpar para a divulgação do rico património cultural e natural”.

Falando à imprensa, o chefe de Estado são-tomense alertou “que é preciso preservar, gerir criar condições de melhor fruição, sob pena de se perder irremediavelmente os fundamentos da são-tomensidade”.

A sexta bienal internacional de arte e cultura, na qual participam escritores de renome internacional como o angolano José Eduardo Agualusa, o português Paulo Ramalho, as são-tomenses Olinda Beja e Conceição Lima, organiza a primeira residência de escrita criativa, que resultará na produção de contos.

José Agualusa sublinhou que este evento tem estado a colocar o arquipélago no mapa da cultura dos eventos culturais africanos e relembrou que os são-tomenses foram os primeiros africanos a escrever e a publicar em língua portuguesa.

Segundo o escritor angolano, "Angola deve muito a São Tomé e alguns dos melhores filhos de Angola são são-tomenses”.

João Carlos Silva, presidente da bienal e arte e cultura de São Tome Príncipe e criador do projeto que começou em 1995, instou as autoridades nacionais sobre a necessidade urgente de se concretizar a candidatura a património mundial da Unesco de “Tchiloli”, nome crioulo de uma peça teatral em que o centro da história recai sobre o príncipe herdeiro, filho do rei que mata o seu amigo no mato durante a caça e o rei fica no impasse se matava ou não o seu filho porque a lei o exigia.

A sexta bienal de arte e cultura de São Tomé e Príncipe, denominada “Patrimónios”, homenageia os portugueses Almada Negreiros e Viana da Mota.