O Livro que Mudou Vidas

Posted on 8/13/2011 by UNITED PHOTO PRESS

Mafalda, de Quino

Tenho de fazer de memória… Já se passou muito tempo. Havia acabado de aprender a ler e ainda tropeçava nas palavras, nas vírgulas. Lia como se estivesse com soluço, cortando as palavras em dois, três, quatro partes. Tinha seis ou sete anos. E alguém, creio que foi minha mãe, me presenteou com um livrinho da Mafalda, de Quino. Um livro grande, com duas tiras por página. Em branco e preto. Logo notei que uns personagens eram crianças, como eu. Tinham a cabeça um pouco maior do que a minha, mas eram crianças como eu.

Fiz um esforço e me pus a ler com dificuldade, até que entendi que se tratava de pequenos contos de três ou quatro quadrinhos. “Ei, isso eu entendo”, reagi diante de uma piada a respeito da preguiça de Felipe ou sobre a intensidade maternal de Susanita, e me vi rindo. Seguramente não para fora, com uma gargalhada, mas para dentro. E dentro de mim esse primeiro riso fez um eco que ainda hoje segue reverberando em vai saber qual das paredes existenciais do meu espírito. Com Mafalda tornei-me amigo da leitura e me fiz amigo dos livros. Com o passar do tempo, Mafalda, Felipe, Manolito, Guille, Libertad, se transformaram em versões 2D dos meus próprios amigos. Eu lia os livrinhos na cama, no recreio e, quando era possível, os cobria com uma capa e os lia na sala de aula. Minha timidez, minha preguiça para os estudos e meu fanatismo pelo Cavaleiro Solitário fizeram com que me identificasse imediatamente com Felipe. E procurava dentre os meus colegas de classe algum que se encaixasse na sua descrição para me tornar amigo. Algum loiro com dentes proeminentes teria que estar em minha turma. E havia um: Juan. Logo, tornei-me seu amigo.

Mafalda sempre me tocou. É um quadrinho que funciona em múltiplos níveis e tem várias leituras. Aos sete, a brincadeira com a tartaruga chamada Burocracia foi, obviamente, mal-interpretada como “Ah, é engraçado porque trata-se de um nome muito diferente”. Mais velho, voltei a ler e compreendi que se tratava de um comentário sobre a lentidão burocrática com a qual nos deparamos o tempo todo. E toda vez que pego aquele gigantesco volume, o Toda Mafalda, surge algo novo. É um clássico, e é saudável revistar os clássicos com assiduidade.

Meu trabalho fez com que um daqueles sonhos que nos dão medo que se concretizem se realizasse: conheci Quino. Quando soube que o meu livro seria editado pela Ediciones de la Flor, a primeira coisa que pensei foi: “É a mesma editora do mestre. Quem sabe um dia eu não cruzo com ele?” E já cruzei várias vezes e, cada vez que isso acontece, aciona em mim uma timidez violenta que só permite que eu faça algum comentário sobre o clima ou diga uma bobagem qualquer sobre estilo até que fico sem assunto. É que estou diante de um dos meus heróis. Quino, que também é tímido, sempre me responde com simpatia e aí termina o diálogo. Não acho que consiga me tornar amigo de Quino, mas de sua obra sou íntimo. Tem muita sorte quem começa a ler livros lendo Quino. Às vezes, nos apaixonamos tanto pelo seu trabalho que acabamos desenhando e publicando livros de histórias em quadrinhos.

Comigo foi assim.