GRANDE REPORTAGEM: Observar a si próprio no ato da escrita

Posted on 9/11/2011 by UNITED PHOTO PRESS

“E que ninguém venha afirmar que nesses domínios o ensaísta, o crítico tem razão ao afirmar que o belo não precisa ter nada de novo para ser belo”


FM: Acho que nosso samba sincopado seria bem recebido pelo Zappa. Imaginemos a patética situação de um kamikaze quando em pleno vôo de morte falha o motor e não há como atingir o alvo ou sequer como retornar. Por vezes olho a maneira como, no Brasil, toda uma faixa criativa, uma parcela a priori sensível de uma cultura, vem reagindo aos próprios impulsos, como toda uma sociedade artística se mostra, como estão todos reagindo em função de mercado, pensando da maneira mais frívola, enfim: não há mais ação, uma atitude surpreendente, tudo é ajuste contratual e ajuste sempre em favor do contratante.


MM: Há coisas que acredito estarem definitivamente sob os domínios da música, e à minha indagação de suas percepções nas mudanças do discurso musical de Frank Zappa, você foi autenticamente musical. Tivesse jogado com especificidades estruturais e imensas possibilidades de diálogo estariam perdidas. Mas noto que você, com bastante ginga, soube transportar algumas sutilezas discursivas desse grande artista para esta deliciosa conversa, e isso é música, no melhor estilo Frank Zappa, sendo ela agora partilhada por quem realmente nos acompanha, em sua generosa magnificência, e não em fastidiosos deliriozinhos estruturalóides que não convencem a ninguém.



FM: Por mais que se adaptem romances para o cinema ou que se ponham música em poemas, cinema não é romance nem canção é poesia. Trata-se de outra linguagem e os mídias deveriam ajudar na compreensão dessas fusões de novas linguagens, abrindo espaço para críticos que tenham a compreensão desse universo sempre em movimento. Em qualquer parte se pode observar certa obsolescência na crítica que se pratica no tocante à criação artística. No caso da música, é comum a presença de uns críticos judiciosos que são guardiões supremos de seus preconceitos em relação a dois aspectos: a obsessão pelo novo a qualquer custo e o desprezo por tudo aquilo que venha a ferir uma tradição dada como cristalizada, intocável. Duas faces da mesma moeda, sim. Eu reforçaria o que disse Chico Buarque com uma frase do Zappa: “Aos diabos com todos os jornalistas de caneta na mão”. Também os jornalistas têm que tratar de viver. E sobretudo não podem ser uma gente frustrada, que trate a arte como projeção ou vingança em relação ao que jamais conseguiriam ser.



MM: As observações de Frank Zappa (“Aos diabos com todos os jornalistas de caneta na mão”) e de Chico Buarque (“O crítico critica a letra, a música ele não consegue criticar”), ao que percebo, são totalmente consonantes e de acordo com o que você pensa, porque elas não ofendem a liberdade crítica, e sim a falta dela, na maioria dos que escrevem sobre arte. E um universo sempre em movimento, pressupõe mobilidade do pensamento para a sua apreensão, o que não é o caso, por exemplo, de um Décio Pignatari que, ao se deparar com uma canção que “não tem nada de novo, mas é extremamente bela” como “O Cantador”, de Dori Caymmi, aproveita-se da situação para brincar de aplicações baratas de alguns dogmas mais do que questionáveis de Ezra Pound. No caso, ele diz que o resultado obtido na composição se deu pela utilização de “signos velhos”, e temos aí uma das audições mais débeis possíveis de uma canção. Reconhecer a extrema beleza de algo que não tem nada de novo é para mim um contra senso.


Uma canção é que nem pessoa, ela está viva, e se você encontra alguém num bar, conversa, toma uma cerveja com essa pessoa, é impossível dizer que não existe ali nada de novo, o que seria tentar provar a inexistência do encontro. E o mesmo se dá em música. E que ninguém venha afirmar que nesses domínios o ensaísta, o crítico tem razão ao afirmar que o belo não precisa ter nada de novo para ser belo. Isso é impossível. Aos diabos com essa prática estruturalista que impede a percepção da vida, e que aniquila a si mesma numa simples colocação como essa do Décio Pignatari. Que se separe música de letra, que se junte, que se faça tudo o que pode e deve ser feito, mas impossível não lembrar a esta altura em que toda uma prática de aproximação com a música, com a pintura, que foi maravilhosamente desenvolvida por Baudelaire, Oscar Wilde, seja arremessada a um cesto de lixo, como sendo matéria fétida, “comentários impressionistas” diriam o Décio e seus pupilos. A grande música verbal de Baudelaire, seja sobre o “Tannhauser” de Wagner, seja sobre aquelas telas num salão de exposição parisiense; a doçura e o sarcasmo de Wilde regando “As Flores do Mal”, de Baudelaire, ou justificando, e com muita antecedência, a imoralidade esplêndida de um Fernando Pessoa, em “A Decadência da Mentira”; isto sim é fazer crítica. E fazer arte.

Você fala que as mídias deveriam abrir espaço para críticos mais aptos a compreenderem um universo em mudança constante. Mas tal universo pressupõe uma mobilidade de pensamento impensável em gente que toma como padrões, esses escribas que defendem a tradição cristalizada e o novo pelo novo, sem sequer se darem conta de que o que hoje se chama de “Invenção”, não é nada além do que a mais cristalizada das tradições recentes. Hoje o mundo gira muito, muito rápido. É preciso, antes de tudo, comunicar esta realidade a quem se mete a escrever sobre arte. Infelizmente a realidade é dura demais para ser deglutida sem altas doses de humor. Zappa teve de atacar, e com toda a razão, os dementes da contracultura que liam Carlos Castañeda, aliás, o grande Carlos Castañeda, e a lição mais notória que nos deram de suas incursões pelas propostas transcendentes desse pensador gigante, felizmente resgatado por Fellini, era sair mundo afora a catar cogumelo em bosta de burro. E com isso afastavam o magnífico “Tales of Power” de certos círculos, na mesma medida em que acadêmicos assustavam hippies com Karl Marx, esse outro crítico essencial. E não obstante todas essas parlapatices ripongas, as décadas de 60 e 70 nos legaram coisas da maior substancialidade.


Hoje, no terceiro milênio, adolescentes brasileiros com alguma informação cultural, estão ouvindo Led Zeppelin, Pink Floyd, Beatles, Milton, Lô Borges, Djavan. Saudosismo? E muitos pais desses adolescentes torcem o nariz à simples menção de qualquer coisa que lembre psicodelismo, década de 70. Zappa é também fruto dessa época, por mais saudavelmente rebelde que tenha sido com seu tempo, romântico, como ele. De um romantismo ingênuo que, comportando heranças surrealistas muitas vezes hiperdiluídas, conspirava no entanto pelo nosso direito de sonhar. Que entendam o que digo como nostalgia, tudo bem, mas uma nostalgia que reivindica em cada célula, em cada átomo, a nossa atávica necessidade de sonhar. Talvez a atitude mais surrealista do século XX, daquelas que Breton e Dalí, juntos, não conceberiam, seja essa: Frank Zappa candidato à presidência dos Estados Unidos. Essa simples imagem: é ou não é Arte de Invenção?



FM: Tuas observações são muito oportunas neste sentido em que vamos perdendo o miolo por fascinação pela casca. Há uma grande tradição de língua inglesa que inclui tanto cummings quanto Wallace Stevens, tanto Ginsberg quanto Dylan Thomas, tanto Edgar O’Hara quanto Robert Graves. E no Brasil encalhamos com os olhos estupefatos diante do que chamas de “dogmas mais do que questionáveis” de Mr. Pound, ingenuamente sujeitados pelos caprichos das cartilhas, carentes de vida própria. Tanta debilidade existencial me irrita, Mário. Nosso diálogo naturalmente requer uma mesa mais ampla, mais tempo (todo o infinito) para seguir viagem por desdobramentos inesgotáveis. Gostaria, no entanto, de repisar algo. Lembremos que o Bernardo Soares (Livro do Desassossego) era tido pelo Fernando Pessoa como uma mutilação de si mesmo, condição que ele não dispensava aos demais heterônimos. Veja bem que a escrita do Bernardo Soares reflete uma fragmentação em estado limite. Evidente que a matriz da mutilação/fragmentação era o próprio Pessoa. Caberia indagar de que maneira estes aspectos se mostram tanto em Zappa quanto em Chico Buarque. Como a dissociação de personalidade age em cada um. É naturalmente assunto que não se esgota aqui, apenas sugere uma reflexão acerca, leitura distinta entre si inclusive, centelhas que estimulam a pensar que a criação artística não poderia mesmo se limitar a mero jogo de palavras, ainda que saturado de sentidos, como equivocamente se entende em nossa tradição beletrista, essa linha que atravessa todo o século XX praticamente sem livrar-se do parnasianismo. Como observar a si próprio no pleno ato da escrita? Quem o faz? Pessoa, Zappa, Buarque? Como se cria hoje? De que maneira um poeta, um letrista de canção, um dramaturgo, um roteirista de cinema, não consegue romper com certo casulo existencial, uma alegoria do ego, e perceber certa transfiguração que será ponte indispensável para que se relacione consigo mesmo e com seu tempo, ir e vir, circulação livre, mão no leme e aceitação da deriva? De outra maneira não haverá o que inventar.



MM: Floriano, você acaba de perguntar: “como observar a si próprio no ato da escrita”? E também retoma o Fernando Pessoa referindo-se ao Bernardo Soares como “uma mutilação de si”. Em outra passagem desta conversa, você afirma que Zappa teria sido ”o último romântico ativo”. Justamente quando todos lamuriam, alardeiam suas conversações com o próprio umbigo (como tristemente o fez Lenine, em “Falange Canibal”), essas pseudo contestações nos deixam entrever um drama ainda maior, o de quem não entra mais em contato consigo, e conseqüentemente perde a essência de todo o real, que só pode ser apreendido pelo indivíduo, e não por membros de comunidades artísticas, religiosas, políticas. Todos os criadores acerca dos quais falamos possuem a marca da profunda individualidade, em vias de interdição quase absoluta no universo contemporâneo. Lembro o Denys Arcand (Invasões Bárbaras) nas páginas amarelas da última Veja. Ele acha que estamos adentrando uma Idade Média moderna, onde teremos um acervo incomensurável a ser redescoberto daqui a sabe-se lá quantas gerações. Embora acredite que isso possa ser ao menos parcialmente revertido, tenho a íntima convicção de que não ocorrerá um processo civilizatório real, sem o resgate dessa imensa turma que trouxemos para esta conversa. Nossa grande aventura é o Redescobrimento do Indivíduo. Talvez alguns astronautas tenham deveras posto os pés na lua, mas os influxos lunares que mais nos inspiram continuam nas noites de candomblé e no Clair de Lune, na resistência ingênua de simples cidadãos que ainda crêem ter sido a conquista da lua, uma fraude da mídia.



*Floriano Martins (Ceará, 1957) é poeta, editor, ensaísta e tradutor.
Dirige o Projeto Editorial Banda Hispânica, dentro do qual circula a revista Agulha Hispânica (www.jornaldepoesia.jor.br/BHAHentrada.htm) e colabora com o DC Ilustrado.